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Entrevista com Scarlett Marton. “Nietzsche: aqui e lá”

Portal Ciência & Vida – Filosofia, História, Psicologia e Sociologia – Editora Escala.

Nietzsche: aqui e lá
Justificando a grande importância do filósofo alemão, o GEN, da USP, promoverá mais um encontro. Scarlett Marton, à frente deste grupo e também integrante do GIRN fala sobre os trabalhos realizados nesse campo e os rumos da pesquisa no Brasil e no exterior

Por: João Neto

Scarlett Marton

Scarlett Marton

Há mais de 30 anos à frente da direção do Grupo de Estudos Nietzsche (GEN) e há três fazendo parte da direção do Groupe International de Recherches sur Nietzsche (Grupo Internacional de pesquisa sobre Nietzsche – GIRN), Scarlett Marton vem tentando implantar, no Brasil, o espírito de inter – nacionalização da pesquisa que tem guiado a investigação acerca da filosofia nietzschiana na Europa. Um passo importante para alcançar esse intento será a realização do 33º Encontros Nietzsche, evento que ocorrerá na USP de 8 a 11 de outubro e reunirá cerca de 20 pesquisadores vindos de Inglaterra, França, Holanda, Itália, Portugal, Argentina e de diversas partes do Brasil (veja nota na coluna Para Refletir). Organizada pelo GEN, esta edição dosEncontros Nietzsche – que tem como tema A pesquisa Nietzsche hoje – servirá para promover um debate internacional acerca da atual situação da Nietzsche Forschung (pesquisa Nietzsche). Nesta entrevista, concedida à Filosofia Ciência e Vida, Marton falou sobre o encontro, sobre o atual cenário da pesquisa e sobre sua experiência à frente do GEN e do GIRN. Scarlett Marton, que é professora titular de Filosofia Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), graduou-se em Filosofia na USP, deu continuidade aos seus estudos na Sorbonne (Universidade Paris I); defendeu o doutorado e a livre-docência na USP e realizou pesquisas de pós-doutorado na École Normale Supérieure de Paris. Em quase 40 anos de estudos, Marton produziu uma extensa obra sobre a filosofia nietzschiana. Ao todo, são 14 livros e dezenas de artigos dedicados ao tema. Entre esses trabalhos, dois são referência quase obrigatória nas teses e dissertações no país: Nietzsche: das forças cósmicas aos valores humanos (UFMG) e Extravagâncias, ensaios sobre a filosofia de Nietzsche (Barcarolla). No GEN, é responsável, desde 1996, pela publicação da revista acadêmica Cadernos Nietzsche e pela coleção Sendas e Veredas.

FILOSOFIA • Qual foi a trajetória do GEN e como o grupo trabalha?

Scarlett Marton • O Grupo de Estudos Nietzsche surgiu em 1989 quando convidei alguns estudantes a lerem Assim falava Zaratustra comigo. Passamos, então, quatro anos e meio lendo e debatendo o livro. Um semestre foi dedicado ao prólogo e um ano para cada uma das partes. Em 1996, o GEN passou por uma espécie de institucionalização, no sentido de que veio a ser reconhecido pelo próprio Departamento de Filosofia da USP. Nesse momento, o grupo passou a atuar em duas frentes distintas: uma revista, os Cadernos Nietzsche, e os Encontros Nietzsche, realizados por ocasião do lançamento de cada número da revista. No que diz respeito à revista, até hoje ela se pauta por duas linhas: uma vertical e uma horizontal. A vertical consiste em publicar textos de pesquisadores de diversos níveis e continentes. Temos textos tanto de professores estrangeiros como de colegas brasileiros. Publicamos artigos de especialistas renomados e de estudantes que ainda estão elaborando suas pesquisas. Quanto à linha horizontal, ela consiste em não fazer distinção entre as vertentes interpretativas da filosofia de Nietzsche. O Encontros Nietzsche é um evento que procura agregar, por meio do debate, pesquisadores estrangeiros e brasileiros. A partir de 2000, quando surgiu a coleção Sendas e Veredas, especializada em publicar ensaios sobre a filosofia nietzschiana, o GEN passou a atuar também nessa frente de trabalho.

FILOSOFIA • E hoje, o trabalho continua sendo feito da mesma maneira? O que mudou durante todos esses anos de experiência?
Marton •
 Na época em que realizamos o estudo de Assim falava Zaratustra, o intuito era, antes de mais nada, formador. E essa formação não se dava apenas na exegese do texto filosófico, mas também por meio da pesquisa das referências culturais de Nietzsche. Ou seja, a partir do Zaratustra, líamos os poetas alemães, escutávamos as óperas de Wagner etc. Assim, fomos mapeando a história cultural alemã do século XIX, na qual Nietzsche estava envolvido. Ao realizarmos esse tipo de atividade, tínhamos em mente que quando a Filosofia é pensada sem sua relação com a Cultura, ela se torna estéril. Outro aspecto que caracteriza o GEN é o trabalho solidário realizado por seus membros. E, nesse sentido, estamos na contracorrente do que se faz, em geral, na universidade. Nós sabemos que na universidade existem redes de poder e que nela vigora a lógica da competição. Contra essa lógica, temos o intuito de manter um espaço de discussão, no qual cada integrante possa colocar à prova as suas hipóteses interpretativas, na presença dos outros colegas. Isso faz com que o crescimento do trabalho de um seja o crescimento do trabalho de todos. Eu sempre repito que, apesar da pesquisa em humanidades ser solitária, ela pode ser solidária.

FILOSOFIA • Como você situaria essa metodologia do GEN em relação ao cenário acadêmico brasileiro? É possível afirmar que o GEN já é uma escola de comentário filosófico?
Marton •
 Eu diria que o GEN se apresenta como escola apenas do ponto de vista metodológico. Por outro lado, se pensarmos em termos das escolhas temáticas, o GEN não pode ser entendido como uma escola. Isso porque temos trabalhos que abordam as mais diversas questões da filosofia nietzschiana. Há pesquisadores que estudam a relação de Nietzsche e a filosofia transcendental de Kant, há os que trabalham com as ideias políticas de Nietzsche, há os que se voltam para as questões afetas à relação do filósofo com a Ciência e assim por diante. Enfim, não há uma homogeneização ou imposição de temas. O que existe é uma convivência e, a partir dessa convivência, uma forma comum – no que diz respeito ao método – de ler a obra de Nietzsche.

FILOSOFIA • O GEN promove intercâmbio com os pesquisadores estrangeiros e sempre recebe estudiosos de fora. E quanto ao movimento inverso? Como o GEN é visto no exterior? Sabemos que alguns membros do grupo participam de congressos internacionais e que há exemplares de publicações do GEN em bibliotecas europeias. Qual é a real dimensão desse diálogo, se pensarmos o GEN como emissor e não mais como receptor?
Marton •
 Nos últimos tempos tem-se falado, no Brasil, na internacionalização da pesquisa. No meu entender, internacionalizar a pesquisa é fazer com que alcancemos um nível de excelência tal que possamos dialogar de igual para igual com os pesquisadores estrangeiros. E esse é o nosso intuito quando recebemos esses pesquisadores aqui: fazê-los dialogar com os integrantes do GEN – que estão espalhados pelas universidades do país. É claro que essas visitas também possuem um objetivo formador, pois, através delas, os estudantes podem ter um contato mais próximo com esses estudiosos. No entanto, como eu disse, trata-se, sobretudo, de possibilitar a exposição e o debate das pesquisas em curso. E é igualmente com esse espírito que os membros do GEN se apresentam no exterior. Ou seja, os integrantes do GEN que participam do GIRN, por exemplo, estão tendo a oportunidade de expor trabalhos no exterior em pé de igualdade com pesquisadores europeus. Ainda com respeito a essa questão, vale mesmo a pena lembrar da época da fundação da USP, quando ela contou com as chamadas missões estrangeiras. Naquele momento, nossa faculdade recebeu, por exemplo, o historiador Fernand Braudel, o antropólogo Lévi-Strauss e o filósofo Victor Goldschmidt. Eles vieram para auxiliar a colocar de pé a universidade. É uma dupla via. Se pensarmos em termos de missão, podemos falar, hoje, de missões brasileiras no exterior.

FILOSOFIA • Você também faz parte da diretoria do GIRN. Poderia falar um pouco sobre essa experiência?
Marton •
 Idealizado em 2006, o GIRN objetiva reunir os diversos grupos de trabalho de diferentes países europeus. A intenção dessa empreitada foi criar um espaço de diálogo permanente acerca da filosofia nietzschiana. Isso quer dizer que os pesquisadores de diferentes escolas e estilos se reúnem, periodicamente, para por à prova suas hipóteses de pesquisa. No meu entender, essa experiência tem sido muito enriquecedora. Primeiro porque se trata de estabelecer laços duráveis na discussão entre as mais variadas maneiras de se estudar a filosofia de Nietzsche. Segundo, o diálogo permanente faz com que a pesquisa seja levada adiante a partir do que é discutido em cada encontro. Além da importância do diálogo permanente entre as diferentes escolas, gostaria de salientar outro ponto que caracteriza o GIRN: o caráter plurilinguístico. Cada integrante do GIRN escolhe em qual língua quer se expressar. Isso tem a ver com a seriedade com a qual enxergamos o caráter multicultural do grupo. Na medida em que as diferentes sensibilidades filosóficas se expressam em diferentes línguas, limitar as exposições a uma única língua significaria perder todas as modulações e nuances da sensibilidade filosófica do contexto ao qual cada pesquisador pertence. Por fim, há a preocupação com a criação de um espaço para as novas gerações de pesquisadores. E agora, estabelecer um paralelo entre o GIRN e o GEN, pois ambos os grupos de pesquisa preocupam-se com a criação de ambientes de discussão que permitam aos jovens pesquisadores levar adiante o que nossa geração já realizou.

FILOSOFIA • Como se dá o diálogo entre as diferentes escolas europeias que compõem o GIRN? Como se dá a relação entre o Nietzsche italiano, o espanhol, o alemão, o francês etc.? O GIRN deu unidade à pesquisa europeia?
Marton •
 Gostaria de salientar que não se trata, de forma alguma, de chegar a uma unidade ou uniformização. Trata-se de fazer com que essas diferentes maneiras de ler o texto nietzschiano dialoguem de forma que se enriqueçam reciprocamente. Na verdade, volto ao mesmo ponto, já que acredito que a diversidade é nossa maior riqueza.

FILOSOFIA • Qual é a diferença entre a pesquisa filosófica feita no Brasil e a realizada no exterior?
Marton •
 No Brasil temos um longo caminho a percorrer, pois a pesquisa ainda patina. Eu tenho a impressão que isso se dá por conta da nossa própria realidade histórica. O Brasil é um país em que tudo está sempre por acontecer, em que o passado e a memória contam pouco. Ou seja, temos um comportamento de quem não tem história, o que nos faz começar do zero a cada momento. Há uma espécie de culto do novo que nos conduz sempre a fazer tábula rasa do passado. Ora, isso se reflete no contexto da pesquisa. As obras de referência – e, aqui, penso em traduções e comentários – poucas vezes são examinadas. É como se tivéssemos dificuldade de nos apropriar do trabalho realizado e da energia investida. Com isso, o que ocorre é uma profusão de trabalhos que começam do zero. Pesquisas que nada mais fazem do que arrombar portas abertas, pois os trabalhos se limitam a reproduzir o que já foi feito. Nesse sentido, receio que, no Brasil, sejam bem poucos os trabalhos que estão contribuindo para levar adiante a pesquisa nietzschiana. Isso constitui um enorme desperdício de energia, de tempo e de dinheiro. Eu diria, inclusive, que uma boa parte desses estudos são trabalhos de divulgação e não, propriamente, pesquisa. Enfim, estamos vivendo uma confusão conceitual entre formação e informação, entre pesquisa e divulgação. E, aqui, não falo apenas sobre a pesquisa Nietzsche, mas da pesquisa filosófica em geral.

FILOSOFIA • Você pode falar um pouco sobre o 33º Encontros Nietzsche? Há uma nova proposta para este ano?
Marton •
 Antes de conversarmos sobre esse evento, eu gostaria de falar um pouco mais sobre o problema que está instaurado na pesquisa filosófica brasileira. Levando em conta a confusão conceitual da qual falamos, eu diria que, no Brasil, a formação foi substituída pela informação e a pesquisa foi substituída pela divulgação. Com isso eu quero dizer que os colóquios que vêm proliferando nos últimos anos, no país, são muito mais voltados para a divulgação de resultados de pesquisas concluídas do que, efetivamente, para a discussão de pesquisas em andamento. Essa forma de proceder traz várias consequências danosas. Uma delas é que o pesquisador, instado a participar de vários eventos dessa natureza, acaba, na maioria das vezes, tendo de mostrar-se produtivo e termina por apresentar o mesmo trabalho em vários congressos. No meu entender, tal atitude não é apenas de responsabilidade pessoal do pesquisador, mas é ensejada, sobretudo, pela própria situação em que vivemos. Uma situação em que a palavra de ordem é a produtividade a todo custo. Ora, uma conjuntura desse tipo acaba por prejudicar a pesquisa em vez de fazê-la avançar. E é justamente por essa razão que, nos últimos anos, nós do GEN procuramos imprimir um outro caráter aos Encontros Nietzsche. Em vez de realizarmos eventos de divulgação de resultados, passamos a promover encontros que são, propriamente, de pesquisa. Isso significa dizer que os pesquisadores que participam do encontro se dispõem a submeter à apreciação e ao debate suas pesquisas em curso. Esse próximo colóquio está sendo concebido, talvez, de uma forma um tanto mais ambiciosa. Isso porque se trata, desta vez, de enfocar o tema A pesquisa Nietzsche hoje. Abordar essa temática significa começar a fazer um balanço e uma avaliação das conquistas até agora realizadas, nesses 120 anos que nos separam do momento em que Nietzsche interrompeu suas atividades intelectuais. Portanto, a nossa ambição é que, no final de quatro dias de trabalhos intensivos, possamos fazer uma avaliação geral do que foi realizado e do que nos cabe ainda realizar. Evidentemente, essa é uma avaliação parcial, pois nem todos os pesquisadores estarão reunidos. No entanto, será um balanço significativo, pois teremos estudiosos de diversos continentes.

FILOSOFIA • De que maneira, de fato, essas discussões influenciam as pesquisas em andamento?
Marton •
 Sobre essa questão vale a pena lembrar de dois dos Encontros Nietzsche mais recentes. Um deles levantava a pergunta se haveria, no contexto do pensamento nietzschiano, uma filosofia da subjetividade. No outro, perguntávamo-nos em que medida Nietzsche ainda estaria enredado na Filosofia Moderna. Nesses dois congressos, ocorreram, até mesmo, situações em que alguns pesquisadores chegaram a rever as próprias posições e o direcionamento de suas pesquisas. Nesse sentido, parece-me muito mais profícuo um colóquio que esteja voltado para as pesquisas em curso do que apenas para a divulgação de resultados de pesquisas já concluídas.

FILOSOFIA • E sobre o trabalho dos estrangeiros convidados, o que vale ressaltar?

Marton • Nós vamos contar com a presença de pesquisadores ingleses, franceses, italianos, portugueses e argentinos – além de todos os integrantes do GEN. Dentre esses pesquisadores, eu gostaria de salientar a presença do italiano Giuliano Campioni que, ao lado do francês Patrick Wotling, foi um dos idealizadores do GIRN. A presença de Campioni será de extrema importância, pois trará a perspectiva do GIRN para as nossas avaliações acerca do atual estágio da pesquisa Nietzsche.

FILOSOFIA • Como você avalia o atual momento da pesquisa sobre Nietzsche?
Marton •
 Eu tenho a impressão que várias etapas já foram cumpridas no que diz respeito aos estudos nietzschianos. A primeira delas, que é de fundamental importância, é que nós já contamos com uma edição criteriosa dos escritos de Nietzsche – a edição implementada pelos estudiosos italianos Colli e Montinari. Isso constituiu uma ferramenta de trabalho indispensável para o pesquisador. Outro ponto ao qual chegamos, é que, em diferentes línguas, já foram realizadas traduções confiáveis. Nesse sentido, nós podemos citar os trabalhos primorosos que foram feitos para a língua italiana e, também, para a língua francesa. E eu diria que as traduções inglesas mais recentes estão aprimorando traduções mais antigas. Isso sem falar do trabalho que os colegas espanhóis estão desenvolvendo, tanto no que diz respeito aos fragmentos póstumos quanto à obra publicada pelo filósofo. Além dessas conquistas, eu queria ressaltar os trabalhos feitos a partir de leituras sistemáticas da obra de Nietzsche. No meu entender, essas leituras são imprescindíveis para a compreensão da filosofia nietzschiana. Isso porque é só a partir do momento em que logramos ter uma visão de conjunto da obra do filósofo que temos, então, condições de nos ater a problemas específicos.

FILOSOFIA • A partir dessas conquistas, o que há ainda a ser feito? Qual a importância de fazer avançar essa pesquisa?
Marton •
 Podemos dizer que, hoje, a pesquisa Nietzsche está seguindo direções distintas: a primeira delas é a pesquisa das fontes. Ou seja, investiga- se quais foram os interlocutores de Nietzsche, quem Nietzsche tomou por interlocutor. Quais foram as leituras por ele realizadas. A pesquisa das fontes sem dúvida nos auxilia a compreender, de maneira mais aprofundada, as próprias questões tratadas pelo filósofo e os encaminhamentos que ele dá a essas questões. Uma outra linha, que no meu entender precisa ser muito desenvolvida ainda, é a recepção dos textos de Nietzsche, sobretudo no Brasil.

FILOSOFIA • Por que esse trabalho de recepção tem tanta importância?
Marton •
 Na verdade, entre Nietzsche e o leitor de hoje nós temos aí cento e tantos anos. Nesse tempo, uma série de apropriações foram feitas. É justamente para desfazer equívocos – por vezes mal-intencionados – que o trabalho de recepção se impõe. Além disso, a pesquisa de recepção vem situar a filosofia nietzschiana nos diferentes contextos. Por exemplo, um trabalho de recepção no Brasil terá de se ater à primeira vaga de recepção nietzschiana no país. Ele vai examinar, por exemplo, como Nietzsche chega, no Brasil, no final do século XIX, por meio da Escola do Recife, com Tobias Barreto. Depois, ela deverá investigar a apropriação feita pelos anarquistas espanhóis que chegam como imigrantes no começo do século XX. Mais tarde, deverá verificar como Nietzsche foi entendido pelos modernistas, a exemplo de Oswald de Andrade. E, finalmente, chegar aos escritos ideológicos de cunho fascista de Plínio Salgado, passando pela apropriação feita pelas Ciências Humanas – particularmente pela Sociologia e pela Psicologia. Uma pesquisa como essa nos permitiria situar Nietzsche no nosso país.

FILOSOFIA • E quanto aos temas, quais estão mais em voga atualmente?
Marton •
 O que está sendo feito hoje é de uma enorme diversidade. Contudo, no meu entender, é na diversidade que se constitui a riqueza. Há questões relativas à Estética, à Política, à Cultura, aos valores e aos próprios temas centrais da filosofia nietzschiana – como o eterno retorno, a vontade de potência e o além do homem. Há também uma interlocução com a tradição filosófica. Um tema que está despontando é o diálogo entre Nietzsche e Kant. Na verdade, esse é um tema que está voltando depois de 100 anos. Se pensarmos nos primeiros trabalhos escritos sobre a filosofia nietzschiana, vamos constatar que eles procuravam, justamente, discutir essa interlocução. Isso pensando no início do século XX. Depois essa questão voltou à tona na França dos anos 1960. Nesse momento, ela veio à baila por uma razão estratégica. Na verdade, foi preciso esperar muito tempo para que Nietzsche fosse considerado filósofo. Nós sabemos que ele sempre foi visto como literato: um poeta – no limite, um poeta filósofo. Ele só foi considerado filósofo na década de 1960, em grande parte graças à obra de Deleuze. E Deleuze conseguiu fazer com que Nietzsche fosse reconhecido pela academia, justamente colocando-o no mesmo estatuto de Kant – apesar de ser o seu antípoda. Essa retomada recente da relação com Kant dá-se num contexto completamente outro. A minha expectativa é que os trabalhos que estão sendo encaminhados nessa direção promovam, efetivamente, avanços em relação a tudo que foi realizado até então. Porque, se não for assim, nós teremos apenas um tema requentado. Isso é sério, pois estamos voltando à relação Nietzsche e Kant 120 anos depois. Ainda sobre as temáticas, outro tema a ser tratado que me parece muito importante é o Nietzsche político. Foram tantas as apropriações feitas do pensamento político do filósofo que durante muito tempo houve uma espécie de receio em tratar das ideias políticas da filosofia nietzschiana. Agora temos condições de abordá-lo de maneira filosófica. É necessário, por exemplo, precisar as apropriações políticas feitas pela extrema direita e pela extrema esquerda. Por fim, eu diria que outro tema muito em voga é o estudo da relação de Nietzsche com as Ciências.

FILOSOFIA • Você pode falar um pouco mais sobre essa relação de Nietzsche com as Ciências?
Marton •
 Justamente porque Nietzsche era considerado um literato, não se levou em conta que suas leituras voltavam-se muito mais para textos de caráter científico do que para textos filosóficos. Por isso, esse aspecto da filosofia nietzschiana nunca foi devidamente considerado. Essa questão já começa a ser mais trabalhada, não se restringindo apenas ao que vinha sendo estudado tradicionalmente, como as relações entre Nietzsche e Darwin e Nietzsche e Lamarck. Agora, por exemplo, aborda- se o diálogo do filósofo com a psicologia francesa. Além disso, os estudiosos têm se debruçado sobre o background científico que está embutido nos temas centrais do pensamento nietzschiano. Esse background aparece, por exemplo, no conceito da vontade de potência e na doutrina do eterno retorno do mesmo.

FILOSOFIA • Nesse sentido, Nietzsche apenas se apropria de conceitos científicos para construir sua própria filosofia? Ou ele dialoga, de fato, com a Ciência da época?
Marton •
 Na verdade, essa é uma questão importante e instigante. Eu tenho a impressão de que o interesse de Nietzsche é dialogar com a Ciência da sua época. Quando ele elabora, por exemplo, sua noção de força, ele está procurando responder a um dos problemas candentes da Ciência da época, que é precisamente explicar como se dá a passagem da matéria inorgânica ao orgânico. A Ciência do século XIX está interessada em resolver essa questão. Nietzsche então vai elaborar sua teoria das forças para tentar abordar o tema à maneira dele. Outro exemplo se dá quando o filósofo vai elaborar a sua doutrina do eterno retorno. Aqui ele vai dialogar com as leis da termodinâmica. Por outro lado, como filósofo, Nietzsche também vai se apropriar de todos esses elementos para construir sua própria filosofia. Na verdade, essa relação entre Ciência e Filosofia é de longa data. Se pensarmos na Filosofia Moderna, vamos encontrar Descartes dialogando com a Ciência da época. Kant também. Quando escreve a primeira de suas críticas, ele realiza um diálogo com a Matemática e a Física de seu tempo. Além deles, podemos citar Pascal, que era matemático e físico e foi o inventor da máquina de calcular. Seguindo essa mesma tendência, mencionar Bergson e Nietzsche, no século XIX, e Husserl, no século XX. Talvez o flerte entre Filosofia e Ciência soe estranho para nós. Contudo, só mais recentemente a Filosofia entrou numa era de especialização tal que os pensadores se distanciaram do que ocorre no domínio científico.

Fonte/crédito: Portal Ciência & Vida – Filosofia, História, Psicologia e Sociologia – Editora Escala..

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